sexta-feira, 31 de agosto de 2012
"Veneza - Percursos com Corto Maltese" de Hugo Pratt
Na companhia de Corto Maltese, personagem emblemático da banda desenhada, e do seu criador, Hugo Pratt, o Veneziano, descubra uma outra face da Sereníssima. Os itinerários deste guia irão revelar-lhe uma Veneza oculta, aquela que o desenhador amava e na qual deambulava, longe dos percursos balizados. Ao virar de uma ruela deserta, irá descobrir o segredo de uma obra-prima da arquitectura, irá embrenhar-se nos pátios ricos em histórias, fábulas e lendas, irá passar da luz para a penumbra, da agitação para a tranquilidade e, pelo caminho, talvez se encontre com a sombra de Corto Maltese. Itinerários definidos para conhecer a cidade e descobri-la passo a passo. Ilustrações que o farão ver Veneza por um outro prisma. Mapas detalhados para cada passeio. Todos os bairros da cidade, a sua evolução e o seu ambiente. Locais secretos, desconhecidos de todos, para sair dos percursos habituais. Curiosidades e esclarecimentos culturais inéditos. Um guia prático.
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
A Abóbada
A Abóbada é uma das Lendas e Narrativas de Alexandre Herculano. Localiza-se no ano de 1401, tendo por assunto a construção do Mosteiro da Batalha, mais concretamente, a construção da abóbada da casa do capítulo do Convento, pelo arquitecto Afonso Domingues, que a delineou, e que, apesar de cego, a concluiu, depois das obras terem sido entregues ao arquitecto Huguet e de este não ter conseguido o seu intento.
A lenda está dividida em cinco capítulos: O Cego, Mestre Huguet, O Auto, Um Rei Cavaleiro, O voto fatal.
Segundo esta lenda, Afonso Domingues quis morrer na célebre sala, em cumprimento de um voto fatal, embora não sem antes concluir com a célebre frase: “A Abóbada não caiu, a abóbada não cairá!”
Alexandre Herculano que, além de insigne escritor, foi também um notável historiador, conhecia um relato mais antigo que o inspirou. Na sua História de S. Domingos, de 1623, Frei Luís de Sousa regista uma história que os frades da Batalha então contavam: a abóbada da casa do capítulo fora levantada por três vezes; das primeiras duas vezes, caiu com grande perda de vidas, ao serem retirados os cimbres; da terceira, o rei mandou chamar, de várias prisões do reino, criminosos sentenciados a penas pesadas, com o compromisso de os libertar, caso a abóbada não os consumisse.
Herculano acrescentou um ponto a este conto, distinguindo o arquitecto português do estrangeiro, num momento de afirmação nacionalista da cultura portuguesa.
Na verdade, sabe-se hoje que a abóbada da Casa Capitular não é da autoria de Afonso Domingues, mas sim de Huguet, tendo podido ser, eventualmente, reconstruída por Martim Vasques pois acredita-se que a lenda tenha um fundo de verdade.
Intermitências da Morte
“No dia seguinte minguém morreu.”
Assim começa “As Intermitências da Morte” de José Saramago.
“De Deus e da Morte não se tem contado senão histórias, e esta é mais uma delas.”
Duas citações encontradas, aquando da leitura do livro:
“Morrer era agora a minha liberdade, e eu tinha a vida inteira para executá-la pormenorizadamente.”, Herberto Helder.
A um químico do futuro, exige Maiakowski:
“A primeira coisa que farás é ressuscitar-me, a mim que tanto amava a vida.”
No catálogo, “José Saramago: A Consistência dos Sonhos”, pode ler-se:
“O escritor referiu-se assim a este romance: “A pergunta é: o que aconteceria se fôssemos eternos? Se a morte desaparecesse de repente, se a morte deixasse de matar, muita gente entraria em pânico: funerárias, seguradoras, lares de terceira idade… E isso para não falar do Estado, que ficaria sem saber como pagar as pensões(…) a imortalidade seria um horror.”
Sem a morte, “um dia aquele dia que sempre chega” a vida e o mundo seriam um caos. Porque "sem morte não há ressurreição, e sem ressurreição não há igreja" diz a determinada altura o cardeal.
De "As Intermitências da Morte" diz Maria Alzira Seixo, que é “um romance divertido, pois que nos pode dar maior satisfação do que rir à custa da morte, a única coisa no mundo que não faz rir ninguém, a não ser em esgar ou exorcismo?”
domingo, 26 de agosto de 2012
Portugal visto por Lobo Antunes
Portugal visto por Lobo Antunes
Nação valente e imortal
Agora sol na rua a fim de me melhorar a disposição, me reconciliar com a vida. Passa uma senhora de saco de compras: não estamos assim tão mal, ainda compramos coisas, que injusto tanta queixa, tanto lamento.
Isto é internacional, meu caro, internacional e nós, estúpidos, culpamos logo os governos. Quem nos dá este solzinho, quem é? E de graça. Eles a trabalharem para nós, a trabalharem, a trabalharem e a gente, mal agradecidos, protestamos.
Deixam de ser ministros e a sua vida um horror, suportado em estóico silêncio. Veja-se, por exemplo, o senhor Mexia, o senhor Dias Loureiro, o senhor Jorge Coelho, coitados. Não há um único que não esteja na franja da miséria. Um único. Mais aqueles rapazes generosos, que, não sendo ministros, deram o litro pelo País e só por orgulho não estendem a mão à caridade. O
senhor Rui Pedro Soares, os senhores Penedos pai e filho, que isto da bondade as vezes é hereditário, dúzias deles. Tenham o sentido da realidade, portugueses, sejam gratos, sejam honestos, reconheçam o que eles sofreram, o que sofrem.
Uns sacrificados, uns Cristos, que pecado feio, a ingratidão. O senhor Vale e Azevedo, outro santo, bem o exprimiu em Londres. O senhor Carlos Cruz, outro santo, bem o explicou em livros. E nós, por pura maldade, teimamos em não entender. Claro que há povos ainda piores do que o nosso: os islandeses, por exemplo, que se atrevem a meter os beneméritos em tribunal. Pelo menos
nesse ponto, vá lá, sobra-nos um resto de humanidade, de respeito. Um pozinho de consideração por almas eleitas, que Deus acolherá decerto, com especial ternura, na amplidão imensa do Seu seio. Já o estou a ver
- Senta-te aqui ao meu lado ó Loureiro
- Senta-te aqui ao meu lado ó Duarte Lima
- Senta-te aqui ao meu lado ó Azevedo que é o mínimo que se pode fazer por esses Padres Américos, pela nossa interminável lista de bem-aventurados, banqueiros, coitadinhos, gestores que o céu lhes dê saúde e boa sorte e demais penitentes de coração puro, espíritos de eleição, seguidores escrupulosos do Evangelho. E com a bandeirinha nacional na lapela, os patriotas, e com a arraia miúda no coração. E melhoram-nos obrigando-nos a
sacrifícios purificadores, aproximando-nos dos banquetes de bem-aventuranças da Eternidade.
As empresas fecham, os desempregados aumentam, os impostos crescem, penhoram casas, automóveis, o ar que respiramos e a maltosa incapaz de enxergar a capacidade purificadora destas medidas. Reformas ridículas, ordenados mínimos irrisórios, subsídios de cacaracá? Talvez. Mas passaremos sem
dificuldade o buraco da agulha enquanto os Loureiros todos abdicam, por amor ao próximo, de uma Eternidade feliz. A transcendência deste acto dá-me vontade de ajoelhar à sua frente.
Dá-me vontade? Ajoelho à sua frente indigno de lhes desapertar as correias dos sapatos.
Vale e Azevedo para os Jerónimos, já!
Loureiro para o Panteão já!
Jorge Coelho para o Mosteiro de Alcobaça, já!
Sócrates para a Torre de Belém, já! A Torre de Belém não, que é tão feia.
Para a Batalha.
Fora com o Soldado Desconhecido, o Gama, o Herculano, as criaturas de pacotilha com que os livros de História nos enganaram.
Que o Dia de Camões passe a chamar-se Dia de Armando Vara. Haja sentido das proporções, haja espírito de medida, haja respeito.
Estátuas equestres para todos, veneração nacional. Esta mania tacanha de perseguir o senhor Oliveira e Costa: libertem-no. Esta pouca vergonha contra os poucos que estão presos, os quase nenhuns que estão presos como provou o senhor Vale e Azevedo, como provou o senhor Carlos Cruz, hedionda perseguição pessoal com fins inconfessáveis.
Admitam-no. E voltem a pôr o senhor Dias Loureiro no Conselho de Estado, de onde o obrigaram, por maldade e inveja, a sair. Quero o senhor Mexia no Terreiro do Paço, no lugar do D. José que, aliás, era um pateta. Quero outro mártir qualquer, tanto faz, no lugar do Marquês de Pombal, esse tirano.
Acabem com a pouca vergonha dos Sindicatos.
Acabem com as manifestações, as greves, os protestos, por favor deixem de pecar. Como pedia o doutor João das Regras, olhai, olhai bem, mas vêde. E tereis mais fominha e, em consequência, mais Paraíso.
Agradeçam este solzinho. Agradeçam a Linha Branca. Agradeçam a sopa e a peçazita de fruta do jantar. Abaixo o Bem-Estar.
Vocês falam em crise mas as actrizes das telenovelas continuam a aumentar o peito: onde é que está a crise, então? Não gostam de olhar aquelas generosas abundâncias que uns violadores de sepulturas, com a alcunha de cirurgiões plásticos, vos oferecem ao olhinho guloso? Não comem carne mas podem comer lábios da grossura de bifes do lombo e transformar as caras das mulheres em tenebrosas máscaras de Carnaval.
Para isso já há dinheiro, não é? E vocês a queixarem-se sem vergonha, e vocês cartazes, cortejos, berros. Proíbam-se os lamentos injustos.
Não se vendem livros? Mentira. O senhor Rodrigo dos Santos vende e, enquanto vender, o nível da nossa cultura ultrapassa, sem dificuldade, a Academia Francesa. Que queremos? Temos peitos, lábios, literatura e os ministros e os ex-ministros a tomarem conta disto.
Sinceramente, sejamos justos, a que mais se pode aspirar? O resto são coisas insignificantes: desemprego, preços a dispararem, não haver com que pagar ao médico e à farmácia, ninharias. Como é que ainda sobram criaturas com a desfaçatez de protestarem? Da mesma forma que os processos importantes em tribunal a indignação há-de, fatalmente, de prescrever. E, magrinhos, magrinhos mas com peitos de litro e beijando-nos uns aos outros com os bifes das bocas seremos, como é nossa obrigação, felizes.
(crónica satírica de António Lobo Antunes, in visão abril 2012)
sexta-feira, 27 de julho de 2012
A Herança dos Templários
A Herança dos Templários apresenta-lhe a história secreta e ignorada dos séculos fundamentais da Idade Média peninsular. Neste livro encontrará reunida a experiência que o autor, prestigiado investigador da área, acumulou ao longo de anos, sistematizando com novas contribuições as suas apaixonantes teses. Esta obra aborda temas indispensáveis para a compreensão do mistério dos Templários.
quarta-feira, 25 de julho de 2012
O Culto do Espirito Santo em Portugal
O CULTO DO ESPIRITO SANTO EM PORTUGAL - UMA CONTRIBUIÇÃO ETNO-HISTÓRICA
por Antonio Jose Menezes
por Antonio Jose Menezes
O culto português do Espírito Santo não tem equivalente no mundo católico. Era específico da Estremadura e das Beiras (em 1928, o bispo da Guarda proibiu os católicos de participar nas «folias» do Espírito Santo, as confrarias que mantinham o culto). O culto está mais próximo da religião judaica do que do Novo Testamento. Os judeus beirões do princípio do séc. XX diziam «O Espírito Santo é nosso, não é deles [católicos]» (1) . De facto, conhecendo os textos que eram lidos nas sinagogas portuguesas no Dia de Pentecostes (Bíblia, Talmude e Zohar) concluímos que este culto foi cripto-judaico. O Talmude é uma colectânea de comentários bíblicos; o Zohar (ou Livro do Esplendor) é um texto exotérico atribuído ao rabi ibérico Moisés Maimónides, são textos ricos em espiritualidade e em devaneios messiânicos e esperancistas. O culto do Espírito Santo pode ter sido uma teatralização dos temas referidos nos textos lidos nas sinagogas nesse dia: proibida a religião judaica, esses temas passaram a ser encenados numa festa de rua, cripto-judaica, difarçadamente católica (2) …
Convém contradizer o mito erudito segundo o qual foi Santa Isabel quem instituiu este culto, em Alenquer. Os cultos não foram instituídos pelos reis nem pelas princesas (isso é dos contos infantis). Têm origem em dinâmicas espirituais e simbólicas, em sobreposições de cultos e de calendários, e na criatividade popular. Há capelas e referências a confrarias do Espírito Santo anteriores à Rainha Santa, nomeadamente em Santarém (3). No entanto, pode um monarca ou uma princesa ter aderido preferencialmente a um culto específico, mas isso não era razão suficiente para que ele se impusesse.
A actual expressão Espírito Santo refere-se à terceira pessoa da Trindade cristã. No entanto, ela é a tradução do hebraico Ruah Kadosh que significa «espírito (ou sopro) santo, divino». No Antigo Testamento a expressão aparece centenas de vezes para significar as «manifestações de Deus»: criador, provedor da sabedoria, inspirador da mente… Os judeus não podem pronunciar o «nome próprio» do Deus bíblico (que nós dizemos Yahwé), pelo que nomeiam-no pelos seus atributos: o Divino, o Senhor, o Bendito, o Espírito Santo…
ORIGEM BÍBLICA – O dia do Espírito Santo é no domingo de Pentecostes que, em grego, significa «50 dias» (7 semanas, depois da Páscoa). Mas a festa é do Antigo Testamento, instituída por Deus: «A partir da Páscoa contarás 7 semanas. Celebrarás a festa das Semanas em honra de Yahweh teu Deus. E levarás ofertas em proporção com o que o teu Deus te deu. Na presença de Yahweh divertir-te-ás, tu, os teus filhos e teus servos, os sacerdotes e os estranhos, as viúvas e os órfãos que vivem no teu meio» (Deuteronómio 16: 8-11). A Páscoa era (como hoje) a primeira lua-cheia depois do equinócio da Primavera. Uma festa à deusa-Lua. O 7 é um número sagrado de carácter lunar (as fases da lua duram 7 dias) e significa «completude», «plena realização». Segundo os historiadores da Bíblia, os hebreus adoptaram da religião dos cananeus (fenícios) a sua festa do Pentecostes – tal como a Páscoa que era uma festa à primeira Lua-cheia da Primavera. O culto da Lua transferiu-se para o Deus bíblico. Jesus também se deslocou com os seus discípulos a Jerusalém para a celebração do Pentecostes, donde a festa cristã.
Nos primórdios bíblicos, era uma festa agrária; chamava-se festa das Semanas, das Ceifas, da Fartura… Depois adquiriu a simbólica da Aliança entre o povo e Deus: festa do Dom da Lei, da Renovação da Aliança ou dos Juramentos.
FESTA DAS CEIFAS – Nas sinagogas portuguesas, neste dia lia-se o Livro de Rute, sendo Rute uma estrangeira que foi avó de David donde provirá o Messias. A acção do livro desenrola-se nas ceifas e numa eira. O livro também lembra a obrigatoriedade da solidariedade social: Rute, imigrante e pobre, foi encontrada a respigar os restos duma ceifa e teve os favores do proprietário; os dois uniram-se durante a noite, na eira. Na memória colectiva dos beirões, «a festa do Espírito Santo é por ocasião das ceifas ou do corte dos fenos», e na região de Viseu «é quando começa a secar a raiz ao pão [= trigo]». O Pentecostes foi a festa das Ceifas.
A POMBA – O ícone do culto é uma pomba que, para os cristãos, representa o Espírito Santo, a terceira pessoa da Trindade. No entanto, nos comentários da sinagoga, a pomba representava a «Shekina de Deus» (a sua «face maternal») que cobre com as suas asas os eleitos. Rute, que era estrangeira, foi acolhida «sob as asas da Shekina», como uma ave cobre as crias; Também se referem a «duas pombas»: a que já veio (o rei David) e a que há-de vir (o Messias). Num dialecto bíblico (aramaico), «Deus» diz-se Yahu que também significa «pomba». Max Weber (sociólogo, mas também historiador do judaísmo antigo) diz que a pomba «é o símbolo de Israel perseguido» e que, no Talmude, é considerada a «mensageira do Espírito divino» (4) . Diferentemente disso, o Espírtito Santo que, no Pentecostes, desceu sobre os apóstolos no cenáculo representou-se por «línguas de fogo», não por uma pomba. Portanto, a Pomba é mais cripto-judaica do que cristã.
O REI ou IMPERADOR – Em algumas freguesias do Litoral (e em Sintra/Penedo) a personagem central do culto é o «imperador ». Ele incarna o Divino. A figura de «rei» já se encontrava nas leituras da sinagoga e referia-se ao Messias-rei. Lia-se este texto: «[...] O rei que há-de vir é da descendêcia de David. O Espírito do Eterno [= Espírito Santo] falará por ele. A palavra de Deus estará na sua boca» (5) . A festa judaica do Pentecostes também era a «festa da Realeza» (de Deus, de Israel ou do Messias) ou da Renovação da Aliança. Os comentários referiam-se à ascendência do Messias (Rute foi avó do rei David donde provirá o Messias judaico) e ao Messias-rei. Entre os judeus da Diáspora, o Pentecostes também se chamou «festa da Realeza de Israel, de Deus ou do Messias». O costume de eleger ou nomear um «rei» para presidir a um bodo ou refeição ritual também se encontra em documentação profana antiga, nas comunidades judaicas da diáspora, fenícias (cananitas) e púnicas (6) .
A COROA – O pendão da festa contém uma coroa. Nos comentários da sinagoga, a coroa era a Aliança entre o povo e Deus. «Desceram do céu duas coroas: uma pela promessa de cumprir (por parte do povo) e outra pela promessa de realizar (por parte de Deus). Na corrente judaica da Cabala, na essência de Deus há dez esferas, duas das quais têm o nome de «coroas». Moisés Cordobero, judeu ibérico (séc. XII), diz que a esfera inferior é «a própria Shekina», a «filha do Rei», que se exilou com o povo de Israel e à qual os fiéis que praticam os preceitos da Promessa se unem como numa relação conjugal» (7) . A festa do Espírito Santo de Tomar também se chama «Festa da Coroa».
BODO – A festa do Espírito Santo é, fundamentalmente, um bodo de pão. Oferece-se pães, ou uma farta refeição de carne, a quem vier – um dos mais belos ritos populares. Diz-se em muitos sítios que este bodo é em «cumprimento duma promessa antiga» que fez a povoação para se ver livre duma praga agrícola ou duma epidemia. A «promessa antiga» pode ser a «Antiga Aliança» firmada no Sinai entre Deus e o povo eleito. O bodo já vem na Bíblia, referido várias vezes para o Pentecostes: «Trareis das vossas casas o pão que será oferecido em gesto de apresentação [...]. Oferecereis, além do pão, sete cordeiros de um ano, um novilho [ou touro, segundo as traduções] em holocausto a Yahweh [...]. É uma lei perpétua para os vossos descendentes onde quer que habiteis» (Levítico 23:15-22) ». E: «Farás sacrifícios de comunhão [= ágapes, bodos] que tu comerás aí mesmo; e tu divertir-te-ás na festa na presença do teu Deus. Escreve nestas pedras todas estas palavras, grava-as bem» (Deut. 27:7-8). Note-se a ordem: «grava bem estas palavras», um preceito importantíssimo… Os bodos rituais são um modo de renovar as boas relações entre habitantes vizinhos, entre tribos vizinhas e entre o povo e o seu Deus.
TRADIÇÕES EXOTÉRICAS – O conceito de «Espírito Santo » é muito fértil em devaneios místicos e em teorias espiritualistas. Em hebraico, ruah tanto significa «vento» como «espírito». Jesus disse: «O vento [ou o Espírito] sopra onde quer, assim acontece com todo aquele que nasceu do Espírito [ou do vento]» (João 3:8). No conceito «Espírito Santo» cabem muitos projectos religiosos: inspirações proféticas, ideais messiânicos, mistérios simbólicos, segredos iniciáticos… No culto beirão encontramos, em 1960, a menção da transmissão dum segredo: o mordomo cessante transmitia um segredo ao sucessor, ambos fechados na capela, mas cujo conteúdo se desconhece (porque era segredo…). Segundo um autor espanhol, nas sinagogas sefarditas (de origem ibérica) da Tessalónica (Grécia) onde ainda se fala português, por volta de 1950, durante as cerimónias do Pentecostes os fiéis formavam uma procissão com a Bíblia e pronunciavam mutuamente ao ouvido «um segredo» que consistia na palavra «arroz» (8) . Ora, dizemos nós, o observador espanhol pensou ouvir a palavra «arroz» quando o que os judeus diziam era a palavra aramaica «rôz» que quer dizer «segredo»… Nas comunidades judaicas dos Essénios (a que, segundo alguns, Jesus e João Baptista pertenceram), os novos adeptos eram iniciados na festa do Pentecostes e a quem era lido o capítulo III do Livro bíblico de Habacuq que começa assim: «Yaweh, eu aprendi o teu nome! Yaweh, eu temo a tua obra! Fá-la reviver no nosso tempo!…». Quer dizer, aprendiam a pronúncia exacta do nome do Deus bíblico – yahweh – que os leigos (como nós…) desconhecem ou pronunciam arbitrariamente (Yaweh, Yauwa, Javé, Jeová…). Nas sinagogas ibéricas, o santo nome era ensinado pelo rabi ao iniciado, ao ouvido, no meio de grande algazarra da assistência (para que ninguém mais pudesse ouvir).
TOURADAS – O abate de touros era frequente – e necessário – no adro do templo de Jerusalém (tal como noutros templos do Médio Oriente) para holocausto à divindade e para o bodo do povo. O nosso culto do Divino associa-se a touradas. No séc. XVI as confrarias do Espírito Santo (ou «do Bodo») de Leiria possuíam reservas ou estábulos para garantir carne para o bodo, e havia touradas «com reses bravas». As touradas ibéricas podem vir desse ritual de sacrifício. A função dos nossos forcados pode vir do acto corajoso de pegar no touro pelos cornos a fim de o sacrificador poder espetar o cutelo. As capelas portuguesas – tal como o Templo de Jerusalém – foram pólos de arraiais taurinos. E vimos que a alegria era obrigatória: «Divertir-te-ás na festa, tu, os teus filhos, os teus servos e os estrangeiros que moram no teu meio»… Nas religiões do Médio Oriente, o Criador podia ser representado por um touro. O Deus bíblico também foi representado, na Samaria, por um touro, tendo até sido encontrada uma inscrição com a expressão «oghel yaou» (o bezerro é Yahweh) (9) . O Deus-touro agradava-se com sacrifícios de touros.
O culto do Espírito Santo é dos mais belos elementos do património imaterial português. A ausência de dogmatismo e de liturgias autoritárias permite que o culto seja espiritualmente fértil («o espírito sopra onde quer»). É universalista, pode ser atribuído a qualquer divindade ou tendência espiritual, ecuménico e transcultural. Nas Beiras interiores desapareceu. No distrito de Leiria ainda se mantém em algumas Freguesias e Concelhos. Persiste com muito dinamismo nos Açores e por fim em Sintra- Penedo.
NOTAS:
1 – Leite de Vasconcelos, Etnografia Portuguesa, IV, Casa da Moeda, p. 223
2 – O Professor Doutor Moisés Espirito Santo, Tratou deste culto nas Beiras, detalhadamente, em Origens Orientais da Religião Popular Portuguesa, Assírio e Alvim 1988. Aqui limito-me a algumas referências
3 – Em Santarém: M.C. Rocha Beirante: Santarém Quinhentista, Universidade Nova de Lisboa, 1980, p. 134.
4 – Max Weber, Le Judaisme Antique, Paris, Plon, 1970, p. 536
5 – Ephémérides de l’année juive, Paris, C.L.K.H. 1981, n.º 4, pp. 409 e seguintes
6 – Bezalel Porten, Archives from Elephantine, pp.153-182.
7 – Moisés Cordobero, Le Palmier de Debora, Paris, Verdier, 1985, cap. IX.
8 – Michel Molho, Usos y costumbres de los Sefardies de Salónica, Madrid, Inst. Arias Montano, 1950, p. 225.
9 – Bertholet, Histoire de la civilisation d’Israel, Paris, Payot, 1929, p. 390
Os Jardins Iniciáticos
da Quinta da Regaleira
JOSÉ MANUEL ANES
Uma síntese actualizada das investigações do autor sobre esta Quinta maravilhosa, onde o Paganismo e o Cristianismo se harmonizam exemplarmente.
"A Quinta da Regaleira, com os seus jardins, poços, grutas e capela, sugere, pois, fortemente, um percurso iniciático (simbólico ou real) que une, de um modo coerente e evolutivo, os diversos locais simbólicos e míticos nela presentes, na perspectiva da Iniciação aos Mistérios em geral e de diversas iniciações esotéricas em particular: todas as que seguem esse ‘arquétipo’, isto é, o de um caminho que vai das Trevas à Luz."
José Manuel Anes
O presente livro faz uma síntese actualizada das investigações do autor sobre esta Quinta maravilhosa, onde o Paganismo e o Cristianismo se harmonizam exemplarmente, estudando-a a partir do ‘centro de gravidade’ que são os seus Jardins Iniciáticos, dos quais decorre a leitura da Regaleira no seu todo. Propõe-se também aos leitores, através do texto e da imagem, um percurso ‘iniciático’ pela Quinta – com referências às correntes literárias, religiosas, espirituais e esotéricas ocidentais –, convidando-os a uma vivência deste riquíssimo e fascinante imaginário que, para alguns, poderá ter ainda uma marcante dimensão espiritual.
terça-feira, 24 de julho de 2012
quarta-feira, 18 de julho de 2012
“Pela Estrada Fora”, de Jack Kerouac
“Pela Estrada Fora”, de Jack Kerouac
Romance fundador da geração “beat”, “Pela Estrada Fora” é a viagem interminável de dois amigos pelas estradas perdidas da América do pós-guerra.
Raquel Ribeiro
Romance fundador da geração “beat”, “Pela Estrada Fora” é a viagem interminável de dois amigos pelas estradas perdidas da América do pós-guerra
Sal Paradise (alter-ego de Jack Kerouac) conta que decidiu sair de casa, em Nova Iorque, quando a universidade o desiludiu. Um dia, parte com 50 dólares no bolso para visitar Dean, que vivia em Denver. E assim começa “Pela Estrada Fora” (1957), romance de Jack Kerouac (autor de “Os Vagabundos do Dharma”, 1958, ou “Big Sur”, 1962) que marcou decisivamente o rumo da juventude americana na década de 60.
Qual Sundance Kid na companhia de Butch Cassidy, Dean e Sal partem em busca da América perdida no desfiladeiro do passado. Descobrem amigos de ocasião, bebem cerveja a rodos, fumam marijuana, dançam ao som do jazz de Nova Orleães e dão boleia a vagabundos de estrada, algures no deserto.
Jack Kerouac nasceu em Lowell, Massachusetts, em 1922. De origem franco-canadiana, cedo se tornou a estrela de futebol americano do liceu local, o que o levou a ser admitido na equipa da Universidade de Columbia, em Nova Iorque, em 1940. Mas uma lesão levou-o a abandonar os relvados em plena época. O treinador não o quis de volta no ano seguinte e, após ver ameaçado o seu lugar na equipa, Kerouac abandonou a universidade e fez-se à estrada.
Não é por acaso que o seu personagem, Sal Paradise, se lança nas estradas secundárias da América em busca de novas experiências. Kerouac fez o mesmo, com os seus amigos de sempre, aqueles com quem um dia se cruzou em Nova Iorque e que viriam a dar origem à “beat generation”: Allen Ginsberg, William Burroughs e Neal Cassady. Esta geração deixaria marcas profundas na juventude americana do pós-guerra, subvertendo a ordem e os costumes americanos na esperança de uma nova liberdade.
Romance autobiográfico, em “Pela Estrada Fora” Dean Moriarty é Neal Cassady, Carlo Marx é Allen Ginsberg e Old Bull Lee é William Burroughs. Kerouac escreveu-o em três semanas, na Primavera de 1951, afogado em café e anfetaminas, que o mantiveram acordado durante dias. Diz-se que, para poupar tempo ao mudar as folhas da máquina de escrever, Kerouac arranjou um enorme rolo de papel e aí escreveu, ao longo de 36 metros, “Pela Estrada Fora”. O romance foi publicado em 1957 e cedo se tornou na narrativa fundadora da geração “beat”.
“Temos de ir e não podemos parar até chegarmos lá”, disse, um dia, Neal Cassady. Quando Kerouac lhe perguntou onde iam, respondeu: “Não sei, mas temos de ir até chegarmos lá.”
terça-feira, 17 de julho de 2012
Paulo Borges - Uma visão armilar do mundo
Uma Visão Armilar do Mundo: a perfeição, plenitude e totalidade da esfera e, nas armilas, a interconexão de todos os seres e coisas, tradições e culturas, artes e saberes. Antes de ser emblema de D. Manuel I, eis toda a fecundidade simbólica da Spera Mundi, esfera e/ou Esperança do Mundo: ao invés do nacionalismo ou patriotismo comuns, a cultura portuguesa e lusófona converteria muros em pontes, fronteiras em mediações, limites em limiares, numa abertura ao universo, a todos os povos, nações, línguas, culturas e religiões. Uma visão integral do mundo, sem cisões, exclusões ou parcialidades. Numa era celebrada como multicultural, a Esfera Armilar surge como paradigma da reinvenção de Portugal como noção de todo o mundo, que vise o melhor para todos, uma cultura da paz, da compreensão e da fraternidade à escala planetária, abraçando a natureza, o homem e todos os seres sencientes
Tempos de Ser Deus
As comemorações do Centenário do nascimento de Agostinho da Silva, a nível nacional, lusófono e internacional, estão a sensibilisou-nos para a mensagem desassossegadora e libertadora deste grande despertador de consciências, que viu como a transformação profunda, a que aspira a insatisfação de hoje e de sempre, não deriva tanto das condições externas quanto da profunda mutação daquilo que é o próprio âmago do nosso ser e de toda a realidade - o espírito ou a mente -, de cuja metamorfose, individual e colectiva, depende toda a regeneração e aperfeiçoamento das nossas vidas, em todas as suas dimensões: ética, estética, intelectual, social, política e económica.
É como contributo para essa desejável metamorfose que publicamos aqui três estudos cuja unidade reside na expressão de três aspectos fundamentais da espiritualidade de Agostinho da Silva: a sua visão do absoluto ou de Deus como "Nada que é Tudo", a relação entre criatividade e mística e a sua original leitura do Espírito Santo como igualmente presente no íntimo de todos os homens e de toda a experiência religiosa, agnóstica e ateia, fundando um ecumenismo verdadeiramente universal onde todas as religiões, agnosticismos e ateísmos possam dialogar, como vias igualmente válidas para essa experiência culminante que descreve como a plena realização de si ou o "ser Deus".
Com uma visão ecuménica assumidamente católica, no sentido de uma universalidade de que o cristianismo é apenas uma das faces, anterior ao concílio Vaticano II e mais ampla do que aí e noutras religiões se consagra, o pensamento de Agostinho da Silva é um contributo fundamental para o diálogo inter-cultural, inter-religioso e trans-confessional que vê como a vocação maior da comunidade lusófona e do qual tão urgentemente depende a cultura de paz, interior e exterior, de que tanto carecemos.
Mas, acima de tudo, é uma sublime pro-vocação, que visa despertar-nos para a tomada de consciência, o exercício e a realização das nossas superiores possibilidades.
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