segunda-feira, 24 de setembro de 2012
domingo, 23 de setembro de 2012
Visitei hoje o Chalet e Jardins da Condenssa de Elba
Pela primeira vez aberto ao público, o conjunto patrimonial do Chalet e Jardim da Condessa d´Elba, integrado no Parque da Pena, é visitável desde Maio de 2011. Após longas e profundas obras de restauro, que devolveram a este refúgio sintrense todo o seu carácter romântico e cénico, é possível agora desfrutar deste património. O Chalet é um edifício do séc. XIX, de traça romântica, mandado construir pelo reio D. Fernando II para a sua esposa, Elise Hensler, Condessa d´Elba. O projecto de reconstrução teve como objectivo devolver ao Chalet o seu estado original, incluindo o restauro e a reintegração dos elementos que resistiram à ruína. O portão e a Casa do Guarda do Chalet foram também objecto de recuperação, sendo aqui que funciona o acolhimento dos visitantes e o centro de interpretação ambiental.
Quanto ao Jardim, o projecto de restauro envolveu, nomeadamente o sistema de captação, distribuição e armazenamento de águas (pondo a descoberto lagos, canais e condutas), a rede de caminhos com a reposição de pavimentos originais, e o restauro das edificações (casas de jardineiro, muros, pontes, pérgola, aviário, etc). Procedeu-se também à plantação de mais de 8000 plantas, que integraram as colecções de rododendros, azáleas, begónias, fetos arbóreos, camélias e outras espécies existentes.
domingo, 16 de setembro de 2012
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
OLHOS, CORAÇÃO E MÃOS NO CANCIONEIRO POPULAR PORTUGUÊS.
OLHOS, CORAÇÃO E MÃOS NO CANCIONEIRO POPULAR PORTUGUÊS.
GUIMARÃES (Ana Paula), — OLHOS, CORAÇÃO E MÃOS NO CANCIONEIRO POPULAR PORTUGUÊS. Circulo de Leitores. (1992). 19,5x27,5 cm. 238 págs.
Primeira edição. Prefácio de José Mattoso.
“Uma viagem aos tempos e modos da relação amorosa — a corte e a conquista, o enamoramento e o amadurecer do amor — através da análise da representação dos olhos, coração e mãos na poesia que anda na voz do povo. Das cantigas de trabalho às cantigas religiosas, das rimas infantis às lengalengas, algumas ingénuas, outras revelando profunda sabedoria, mas sempre cheias de vitalidade, este livro é um contributo inestimável para o conhecimento de um género injustamente esquecido pelos estudiosos da literatura.”
quinta-feira, 6 de setembro de 2012
Aprendiz de Sherlock Holmes
Aprendiz de Sherlock Holmes
Quando eu tinha 10 anos pedi aos meus pais para me comprarem este livro. Uma delícia! Passado pouco tempo compraram-me o segundo volume :). Nunca os largava, levava-os comigo para todo o lado! Os livrinhos do Inspector Varatojo continham factos interessantissimos acerca de criminosos apanhados com a boca na botija, tinham lições de judo com o Santo, enigmas para resolvermos...
Ontem peguei nos dois volumes e passei um bom bocado a reler mais uma vez aquelas páginas, aquelas explicações e conselhos para o jovem aprendiz de detective que, apesar do passar dos anos, nunca esqueci. Um dos livros ainda tem o preço na capa: 425 escudos.
Se quiserem saber um pouquinho mais sobre Artur Varatojo visitem este site: http://www.esquilo.com/varatojo/abertura.html .
posted by Patsy-Nana
terça-feira, 4 de setembro de 2012
Major Alvega
'Major Alvega' é uma personagem fictícia, ás da aviação anglo-portuguêsa da RAF (Royal Air Force, a Força Aérea britânica), e herói da série de banda desenhada que fez grande furor nas décadas de 1960 e 1970 em Portugal, aparecendo recorrentemente nas páginas de pequeno formato da revista juvenil "O Falcão".[1]
No título original em inglês tratava-se de "Battler Britton - England's fighting ace of land, sea and air".[1] Battler Britton, criado em 1956 por Mike Butterworth e Geoff Campion, foi protagonista das mais variadas aventuras, todas caracterizadas por muita acção, suspense e um toque de humor, nas quais defrontou (e venceu) alguns dos mais importantes intervenientes da Segunda Guerra Mundial: Rommel, Goering, Hitler e Mussolini.
No entanto, numa época em que a censura (ao serviço de um Estado Novo fervorosamente nacionalista) obrigava todos os heróis do género a figurarem nomes portugueses (e por consequência alguma forma de ascendência lusa), o protagonista seria rebaptizado de Major Jaime Eduardo de Cook e Alvega, um ribatejano por via paterna e inglês por via materna, que teria frequentado os passos da academia Coimbrã enquanto estudante.[1]
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
Paulo Guilherme D'eça Leal 1932 - 2010
Nasceu em Lisboa em 1932. Colaborador regular de quase todos os jornais diários e periódicos de Lisboa, dirigiu gráfica e literariamente vários semanários, publicou mais de cinco mil ilustrações e dezenas de capas de livros e ganhou inúmeros prémios de artes gráficas e publicidade. Dedicou-se intensamente à decoração de algumas casas particulares. Projectou centros comerciais, bancos e restaurantes; entre os seus projectos mais importantes figuram o Banco Pinto e Sotto Mayor, no Porto, O Aeroporto de Lisboa e o Museu do Centro Cultural de Macau em Lisboa.
Realizou inúmeras exposições individuais e tem pinturas, desenhos, tapeçarias e esculturas em dezenas de colecções particulares em Portugal, Angola, Moçambique, Espanha, França, Itália, América do Norte e também no Brasil. Fez ainda diversos selos, moedas e medalhas. É autor de quatro livros, entre os quais um profundo estudo sobre a pirâmide de Quéops e O Segredo, o Poder e a Chave.
Publicações
"O Díluvio de Quéops" (Novas comunicações sobre a antiga ciência egípcia) (1993)
"As sete portas de Arsenise" (romance de 1995)
"Ainda é cedo para ser tarde" (poemas, em 1997)
"Segredo, o poder e a chave" (pesquisa sobre o Mosteiro da Batalha)
"Depressa que o verso foge" (poemas)
Edgar P. Jacobs 1904-1987
Edgard Félix Pierre Jacobs, ou Edgar P. Jacobs, como assina, (Bruxelas, 30 de Março de 1904 - 20 de Fevereiro de 1987), foi um desenhador belga, de banda desenhada. Foi um dos fundadores do movimento cómico europeu, colaborando com Hergé, e criando a série de livros que o tornou famoso, Blake & Mortimer.
Jacobs nasceu em Bruxelas, em 1904, e terá começado a desenhar desde muito pequeno. No entanto, a sua verdadeira paixão eram as artes dramáticas, e a ópera em particular. Em 1919, acabou os seus estudos na escola comercial, por vontade dos seus pais. Paralelamente, continuou a desenhar, e a dedicar-se à música e ao teatro. Trabalhou como decorador, pintor e apoio a cenografia. Em 1929, recebeu a medalha de excelência em canto clássico, atribuída pelo governo belga. No entanto, os tempos que se seguiram foram de crise financeira na comunidade artística belga.
Após uma carreira secundária de cantor barítono, entre 1919 e 1940, com alguns trabalhos de desenho pelo meio, Jacobs decide seguir a carreira de desenhador, elaborando ilustrações, e colaborando na revista Bravo, até 1946. Esta revista foi um sucesso, chegando às 300.000 cópias, em cada edição.
Durante a 2ª Guerra Mundial, a banda desenhada Flash Gordon foi proibida na Bélgica, pelas tropas alemãs, ficando as suas histórias suspensas. Jacobs é convidado a terminar as histórias, mas as forças de ocupação alemãs censuraram o seu trabalho, pouco tempo depois. No seguimento desta proíbição, Jacobs publica o seu primeiro trabalho, O Raio U, na revista Bravo, semelhante às aventuras de Flash Gordon.
Por esta altura, Jacobs encontra-se a pintar os cenários para uma adaptação teatral de Os Charutos do Faraó, de Hergé. Apesar do modesto sucesso da peça, Jacobs conhece Hergé, e tornam-se amigos. Jacobs é convidado para melhorar alguns livros das Aventuras de Tintim como Tintim na África, Tintim na América, O Ceptro de Ottokar ou o O Lóto Azul.
Após esta colaboração inicial, continuou a trabalhar nas histórias de Tintim, tanto no desenho, como no próprio argumento, de O Segredo do Licorne, O Tesouro de Rackham o Terrível, As Sete Bolas de Cristal e O Templo do Sol.
O gosto de Jacobs por ópera, levou-o a convidar Hergé a assistir a vários concertos. Daqui terá surgido a ideia de criar a personagem Bianca Castafiore, das histórias de Tintim. Como agradecimento, Hergé dará o nome de Jacobini, a uma das personagens de O Caso Girassol, que surge ao lado de Castafiore na ópera de Gounod, Fausto, e a um egiptologista, no livro Os Charutos do Faraó.
O Pós-guerraEm 1946, fez parte do grupo fundador da revista Le Journal de Tintim, onde foi publicado o seu trabalho O Segredo do Espadão, em 26 de Setembro, a primeira aventura de Blake & Mortimer.
No ano seguinte, Jacobs sugere a Hergé ter parte dos direitos nas Aventuras de Tintim, mas este recusa, e a sua amizade é posta em causa. Mesmo assim, Hergé continua seu amigo, e os seus trabalhos continuam a ser incluídos na revista Tintim.
Em 1950, Jacobs publica O Mistério da Grande Pirâmide, e muitos outras obras se seguirão.
De 1970 à actualidadeEm 1970, Jacobs publica o primeiro volume de As 3 Fórmulas do Professor Sato, com a acção passada no Japão.
Em 1973, faz uma nova versão de O Raio U, e escreve a sua autobiografia com o título Un opéra de papier: As memórias de Blake & Mortimer. Segue-se o segundo volume de As 3 Fórmulas do Professor Sato, mas Jacobs morre durante a sua elaboração. Bob de Moor é escolhido para finalizar este trabalho, publicado em 1990.
Em homenagem a Edgar P. Jacobs, foram construídas duas estátuas, uma no Bois des Pauvres, perto de Bruxelas, onde Jacobs tinha uma casa, e outra no seu túmulo, no cemitério de Lasne, também nas imediações da capital belga. Esta última lembra Philip Mortimer, um dos seus personagens.
Em 1971, Jacobs recebeu o Grand Prix Saint-Michel, prémio atribuído pela cidade de Bruxelas, pelo seu trabalho na banda desenhada.
Bibliografia
O Raio U (1943)
2.O Segredo do Espadão, (1947) (3 volumes)
3.O Mistério da Grande Pirâmide, (1950) (2 volumes)
4.A Marca Amarela, (1953)
5.O Enigma da Atlântida, (1955)
6.S.O.S. Meteoros, (1958)
7.A Armadilha Diabólica, (1960)
8.O Caso do Colar, (1965)
9.As 3 Fórmulas do Professor Sato, (1970) (2 volumes; o segundo volume foi finalizado por Bob de Moor, em 1990)
domingo, 2 de setembro de 2012
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
"Veneza - Percursos com Corto Maltese" de Hugo Pratt
Na companhia de Corto Maltese, personagem emblemático da banda desenhada, e do seu criador, Hugo Pratt, o Veneziano, descubra uma outra face da Sereníssima. Os itinerários deste guia irão revelar-lhe uma Veneza oculta, aquela que o desenhador amava e na qual deambulava, longe dos percursos balizados. Ao virar de uma ruela deserta, irá descobrir o segredo de uma obra-prima da arquitectura, irá embrenhar-se nos pátios ricos em histórias, fábulas e lendas, irá passar da luz para a penumbra, da agitação para a tranquilidade e, pelo caminho, talvez se encontre com a sombra de Corto Maltese. Itinerários definidos para conhecer a cidade e descobri-la passo a passo. Ilustrações que o farão ver Veneza por um outro prisma. Mapas detalhados para cada passeio. Todos os bairros da cidade, a sua evolução e o seu ambiente. Locais secretos, desconhecidos de todos, para sair dos percursos habituais. Curiosidades e esclarecimentos culturais inéditos. Um guia prático.
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
A Abóbada
A Abóbada é uma das Lendas e Narrativas de Alexandre Herculano. Localiza-se no ano de 1401, tendo por assunto a construção do Mosteiro da Batalha, mais concretamente, a construção da abóbada da casa do capítulo do Convento, pelo arquitecto Afonso Domingues, que a delineou, e que, apesar de cego, a concluiu, depois das obras terem sido entregues ao arquitecto Huguet e de este não ter conseguido o seu intento.
A lenda está dividida em cinco capítulos: O Cego, Mestre Huguet, O Auto, Um Rei Cavaleiro, O voto fatal.
Segundo esta lenda, Afonso Domingues quis morrer na célebre sala, em cumprimento de um voto fatal, embora não sem antes concluir com a célebre frase: “A Abóbada não caiu, a abóbada não cairá!”
Alexandre Herculano que, além de insigne escritor, foi também um notável historiador, conhecia um relato mais antigo que o inspirou. Na sua História de S. Domingos, de 1623, Frei Luís de Sousa regista uma história que os frades da Batalha então contavam: a abóbada da casa do capítulo fora levantada por três vezes; das primeiras duas vezes, caiu com grande perda de vidas, ao serem retirados os cimbres; da terceira, o rei mandou chamar, de várias prisões do reino, criminosos sentenciados a penas pesadas, com o compromisso de os libertar, caso a abóbada não os consumisse.
Herculano acrescentou um ponto a este conto, distinguindo o arquitecto português do estrangeiro, num momento de afirmação nacionalista da cultura portuguesa.
Na verdade, sabe-se hoje que a abóbada da Casa Capitular não é da autoria de Afonso Domingues, mas sim de Huguet, tendo podido ser, eventualmente, reconstruída por Martim Vasques pois acredita-se que a lenda tenha um fundo de verdade.
Intermitências da Morte
“No dia seguinte minguém morreu.”
Assim começa “As Intermitências da Morte” de José Saramago.
“De Deus e da Morte não se tem contado senão histórias, e esta é mais uma delas.”
Duas citações encontradas, aquando da leitura do livro:
“Morrer era agora a minha liberdade, e eu tinha a vida inteira para executá-la pormenorizadamente.”, Herberto Helder.
A um químico do futuro, exige Maiakowski:
“A primeira coisa que farás é ressuscitar-me, a mim que tanto amava a vida.”
No catálogo, “José Saramago: A Consistência dos Sonhos”, pode ler-se:
“O escritor referiu-se assim a este romance: “A pergunta é: o que aconteceria se fôssemos eternos? Se a morte desaparecesse de repente, se a morte deixasse de matar, muita gente entraria em pânico: funerárias, seguradoras, lares de terceira idade… E isso para não falar do Estado, que ficaria sem saber como pagar as pensões(…) a imortalidade seria um horror.”
Sem a morte, “um dia aquele dia que sempre chega” a vida e o mundo seriam um caos. Porque "sem morte não há ressurreição, e sem ressurreição não há igreja" diz a determinada altura o cardeal.
De "As Intermitências da Morte" diz Maria Alzira Seixo, que é “um romance divertido, pois que nos pode dar maior satisfação do que rir à custa da morte, a única coisa no mundo que não faz rir ninguém, a não ser em esgar ou exorcismo?”
domingo, 26 de agosto de 2012
Portugal visto por Lobo Antunes
Portugal visto por Lobo Antunes
Nação valente e imortal
Agora sol na rua a fim de me melhorar a disposição, me reconciliar com a vida. Passa uma senhora de saco de compras: não estamos assim tão mal, ainda compramos coisas, que injusto tanta queixa, tanto lamento.
Isto é internacional, meu caro, internacional e nós, estúpidos, culpamos logo os governos. Quem nos dá este solzinho, quem é? E de graça. Eles a trabalharem para nós, a trabalharem, a trabalharem e a gente, mal agradecidos, protestamos.
Deixam de ser ministros e a sua vida um horror, suportado em estóico silêncio. Veja-se, por exemplo, o senhor Mexia, o senhor Dias Loureiro, o senhor Jorge Coelho, coitados. Não há um único que não esteja na franja da miséria. Um único. Mais aqueles rapazes generosos, que, não sendo ministros, deram o litro pelo País e só por orgulho não estendem a mão à caridade. O
senhor Rui Pedro Soares, os senhores Penedos pai e filho, que isto da bondade as vezes é hereditário, dúzias deles. Tenham o sentido da realidade, portugueses, sejam gratos, sejam honestos, reconheçam o que eles sofreram, o que sofrem.
Uns sacrificados, uns Cristos, que pecado feio, a ingratidão. O senhor Vale e Azevedo, outro santo, bem o exprimiu em Londres. O senhor Carlos Cruz, outro santo, bem o explicou em livros. E nós, por pura maldade, teimamos em não entender. Claro que há povos ainda piores do que o nosso: os islandeses, por exemplo, que se atrevem a meter os beneméritos em tribunal. Pelo menos
nesse ponto, vá lá, sobra-nos um resto de humanidade, de respeito. Um pozinho de consideração por almas eleitas, que Deus acolherá decerto, com especial ternura, na amplidão imensa do Seu seio. Já o estou a ver
- Senta-te aqui ao meu lado ó Loureiro
- Senta-te aqui ao meu lado ó Duarte Lima
- Senta-te aqui ao meu lado ó Azevedo que é o mínimo que se pode fazer por esses Padres Américos, pela nossa interminável lista de bem-aventurados, banqueiros, coitadinhos, gestores que o céu lhes dê saúde e boa sorte e demais penitentes de coração puro, espíritos de eleição, seguidores escrupulosos do Evangelho. E com a bandeirinha nacional na lapela, os patriotas, e com a arraia miúda no coração. E melhoram-nos obrigando-nos a
sacrifícios purificadores, aproximando-nos dos banquetes de bem-aventuranças da Eternidade.
As empresas fecham, os desempregados aumentam, os impostos crescem, penhoram casas, automóveis, o ar que respiramos e a maltosa incapaz de enxergar a capacidade purificadora destas medidas. Reformas ridículas, ordenados mínimos irrisórios, subsídios de cacaracá? Talvez. Mas passaremos sem
dificuldade o buraco da agulha enquanto os Loureiros todos abdicam, por amor ao próximo, de uma Eternidade feliz. A transcendência deste acto dá-me vontade de ajoelhar à sua frente.
Dá-me vontade? Ajoelho à sua frente indigno de lhes desapertar as correias dos sapatos.
Vale e Azevedo para os Jerónimos, já!
Loureiro para o Panteão já!
Jorge Coelho para o Mosteiro de Alcobaça, já!
Sócrates para a Torre de Belém, já! A Torre de Belém não, que é tão feia.
Para a Batalha.
Fora com o Soldado Desconhecido, o Gama, o Herculano, as criaturas de pacotilha com que os livros de História nos enganaram.
Que o Dia de Camões passe a chamar-se Dia de Armando Vara. Haja sentido das proporções, haja espírito de medida, haja respeito.
Estátuas equestres para todos, veneração nacional. Esta mania tacanha de perseguir o senhor Oliveira e Costa: libertem-no. Esta pouca vergonha contra os poucos que estão presos, os quase nenhuns que estão presos como provou o senhor Vale e Azevedo, como provou o senhor Carlos Cruz, hedionda perseguição pessoal com fins inconfessáveis.
Admitam-no. E voltem a pôr o senhor Dias Loureiro no Conselho de Estado, de onde o obrigaram, por maldade e inveja, a sair. Quero o senhor Mexia no Terreiro do Paço, no lugar do D. José que, aliás, era um pateta. Quero outro mártir qualquer, tanto faz, no lugar do Marquês de Pombal, esse tirano.
Acabem com a pouca vergonha dos Sindicatos.
Acabem com as manifestações, as greves, os protestos, por favor deixem de pecar. Como pedia o doutor João das Regras, olhai, olhai bem, mas vêde. E tereis mais fominha e, em consequência, mais Paraíso.
Agradeçam este solzinho. Agradeçam a Linha Branca. Agradeçam a sopa e a peçazita de fruta do jantar. Abaixo o Bem-Estar.
Vocês falam em crise mas as actrizes das telenovelas continuam a aumentar o peito: onde é que está a crise, então? Não gostam de olhar aquelas generosas abundâncias que uns violadores de sepulturas, com a alcunha de cirurgiões plásticos, vos oferecem ao olhinho guloso? Não comem carne mas podem comer lábios da grossura de bifes do lombo e transformar as caras das mulheres em tenebrosas máscaras de Carnaval.
Para isso já há dinheiro, não é? E vocês a queixarem-se sem vergonha, e vocês cartazes, cortejos, berros. Proíbam-se os lamentos injustos.
Não se vendem livros? Mentira. O senhor Rodrigo dos Santos vende e, enquanto vender, o nível da nossa cultura ultrapassa, sem dificuldade, a Academia Francesa. Que queremos? Temos peitos, lábios, literatura e os ministros e os ex-ministros a tomarem conta disto.
Sinceramente, sejamos justos, a que mais se pode aspirar? O resto são coisas insignificantes: desemprego, preços a dispararem, não haver com que pagar ao médico e à farmácia, ninharias. Como é que ainda sobram criaturas com a desfaçatez de protestarem? Da mesma forma que os processos importantes em tribunal a indignação há-de, fatalmente, de prescrever. E, magrinhos, magrinhos mas com peitos de litro e beijando-nos uns aos outros com os bifes das bocas seremos, como é nossa obrigação, felizes.
(crónica satírica de António Lobo Antunes, in visão abril 2012)
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