segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Inaugurada a Casa da Escrita em Coimbra


Coimbra


“Casa de Sonho”
presta homenagem
à escrita

Casa da Escrita une-se ao Plano Nacional de Leitura, com várias actividades, em parceria com as escolas

É uma «casa de sonho». A casa onde um grupo de jovens estudantes e pensadores se reunia e dava asas ao dom da escrita. Ontem voltou a ser o que sempre foi quando lá vivia João José Cochofel: uma casa aberta. «Todos para aqui vinham», recordou a filha do poeta, Maria Eugénia Cochofel, na cerimónia de inauguração, que contou com a presença de alguém que, nesse passado distante, ajudou a criar o neo-realismo e o Novo Cancioneiro, Eduardo Lourenço.
Esteve na casa do arco, na Rua Dr. João Jacinto, umas duas vezes. Tinha 19, 20 anos e só ficava no jardim. É agora, aos 87 anos, que sente que vai conhecer verdadeiramente aquele espaço, na Alta de Coimbra, que lhe enche a alma só como foi baptizada. «Não podia ter mais belo nome», salientou, recordando uma geração que naquele «castelo de sonhos» assistia «às injustiças do mundo».
Do jardim, Eduardo Lourenço pensava que dentro daquelas paredes havia uma biblioteca, cheia de livros de «ícones da literatura universal», que para ele eram «inacessíveis». «Tudo estava nesta casa», onde se reuniam pensadores, que idealizavam um mundo que precisava de ser «renovado, alterado, desconstruído» e, por isso, «inventaram uma nova maneira de estar na ordem».
«Os sonhos que esta geração sonhou foram radicais, intensos. Fizeram-no como poetas, cidadãos e, sobretudo, como gente que não aceita a realidade e a deseja transformar», adiantou o ensaísta, dando como exemplo João José Cochofel, como «um lírico na sua expressão mais simples e quase minimalista». Mais. «Alguém que tem uma espécie de paixão deste mundo, uma espécie de Alberto Caeiro sem metafísica nenhuma», continuou, elogiando essa vontade do poeta «de ser o cantor do lado mais solar deste mundo».
A partir de agora, aquele espaço será «mais do que uma casa de escrita». É também a casa onde nasceu a vontade de que a realidade – pelo menos, parte dela – «fosse feita do que os sonhos são feitos».

Uma saga com um final feliz
«Coimbra dos escritores celebra-se aqui», considera Carlos Encarnação, salientando que a neta Joana conseguiu definir a antiga residência de Cochofel da melhor maneira: «é uma casa com muitos sítios». Relembrando a «saga» deste sonho antigo, o presidente da Câmara Municipal de Coimbra realçou a «aposta nas virtudes da escrita», enquanto o director regional de Cultura, António Pedro Pita, disse que mesmo antes de ser uma “Cidade Refúgio” - rede a que aderiu em 2003 -, Coimbra tinha «há muitos anos uma casa dos que não tinham casa».
A promessa do curador da Casa da Escrita é simples: «corresponder com uma programação tão viva quanto foi esta casa», com iniciativas vocacionadas para a escrita criativa e outras para a escrita funcional. Por ali, continuou, vão passar «grandes escritores nacionais e estrangeiros», que vão «enriquecer o arquivo aberto desta casa», sublinhou Seabra Pereira, realçando o trabalho no âmbito do Plano Nacional de Leitura.
Presente na cerimónia de inauguração, a ministra da Educação destacou, precisamente, essa ligação ao Plano Nacional de Leitura, desejando que o trabalho ali desenvolvido seja uma «fonte de inspiração para os professores» para que se sucedam iniciativas conjuntas com as escolas e que «contribua para o aprofundar do gosto pela leitura e pela escrita».
Definindo a Casa da Escrita como «um marco importante para a história da cultura do nosso país», Isabel Alçada espera que esta contribua para «tornar mais acessível o inestimável poder, que é o poder de escrever».
A sessão ficou ainda marcada pela leitura de poemas de João José Cochofel por Maria de Jesus Barros e pela vereadora da Cultura, Maria José Azevedo Santos.

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